Defender a ciência é, acima de tudo, defender vidas
Por: Dr. Indrajit Hazarika, Representante da OMS em Angola
No Dia Mundial da Saúde 2026, sob o lema “Juntos pela Saúde. Apoiar a Ciência”, a Organização Mundial da Saúde apela a todos para reafirmarmos uma verdade simples, mas poderosa: num mundo cada vez mais complexo, a ciência continua a ser o nosso guia mais fiável para proteger a saúde, salvar vidas e construir sociedades resilientes.
Esta mensagem tem particular relevância para Angola. Nos últimos anos, o país tem demonstrado que políticas baseadas em evidências científicas podem gerar resultados concretos e transformadores. Mesmo perante desafios significativos, desde surtos de cólera, poliomielite e sarampo até às exigências de um sistema de saúde em constante adaptação, Angola tem avançado com determinação.
Os progressos são visíveis. A mortalidade materna e infantil tem vindo a diminuir. Os serviços essenciais de saúde foram reforçados. A vigilância epidemiológica tornou-se mais robusta. Os laboratórios estão a ser modernizados. A resposta às emergências de saúde pública é hoje mais rápida e coordenada. As campanhas de vacinação chegam a um número cada vez maior de crianças. Estes resultados reflectem o esforço conjunto das autoridades nacionais, dos profissionais de saúde, das comunidades e dos parceiros, incluindo o sector privado, unidos por um compromisso comum.
A OMS orgulha-se de caminhar ao lado de Angola neste percurso. Marcos recentes evidenciam este compromisso contínuo com uma transformação orientada pela ciência. A criação e a operacionalização do Centro Nacional de Operações de Emergências de Saúde Pública, bem como dos seus centros regionais, representam um avanço significativo na capacidade de resposta coordenada às ameaças súbitas. O reforço da regulação de medicamentos e tecnologias de saúde está a aproximar o país do nível de maturidade regulatória 3 até 2027, contribuindo para maior segurança e qualidade dos produtos de saúde. A aprovação da Estratégia Nacional de Imunização 2026–2030 reafirma o compromisso com a protecção da saúde das crianças e com a prevenção de doenças evitáveis por vacinação.
Estes avanços não são apenas técnicos; são investimentos na vida, na confiança e no futuro. No entanto, persistem desafios importantes. A malária continua a ser uma das principais causas de doença e morte, exigindo respostas mais robustas em prevenção e tratamento. A tuberculose permanece uma preocupação relevante, exigindo diagnósticos mais precoces, tratamentos eficazes e maior integração nos cuidados de saúde primários.
Paralelamente, as doenças não transmissíveis, como a hipertensão, o cancro e as doenças cardiovasculares, estão a aumentar, impulsionadas por mudanças nos estilos de vida e pelo envelhecimento da população, o que exige políticas abrangentes, baseadas na ciência e centradas na prevenção. A tudo isto soma-se um desafio crescente: a desinformação. Quando informações falsas minam a confiança nas vacinas, nos tratamentos ou nas medidas de saúde pública, colocam vidas em risco e comprometem os progressos alcançados.
É neste contexto que o tema deste ano assume particular importância. A ciência só cumpre plenamente o seu propósito quando se traduz em acção, quando a evidência orienta políticas, quando os dados informam decisões e quando as comunidades confiam e beneficiam do conhecimento produzido. Reforçar essa confiança é essencial. Igualmente importante é adoptar uma visão integrada da saúde. A abordagem Uma Só Saúde (One Health), que reconhece a interligação entre a saúde humana, animal e ambiental, é fundamental para prevenir futuros surtos e enfrentar ameaças emergentes, como a resistência antimicrobiana.
Angola encontra-se hoje perante uma oportunidade única. Os investimentos em recursos humanos, infraestructuras, sistemas digitais e inovação estão a criar bases sólidas para acelerar a modernização do sistema de saúde e responder de forma mais eficaz às necessidades da população. Com um compromisso renovado, estes avanços poderão ser ampliados e traduzidos em melhores resultados de saúde para todos.
A OMS continuará a apoiar Angola nesta nova etapa, revitalizando os cuidados de saúde primários, expandindo a imunização, reforçando os sistemas laboratoriais, melhorando a vigilância epidemiológica, promovendo a digitalização, investindo na formação de profissionais e fortalecendo a capacidade de resposta a emergências. Estes esforços são essenciais para avançar rumo à cobertura universal de saúde.
O Dia Mundial da Saúde é mais do que uma data simbólica; é um apelo à acção. Um apelo à responsabilidade colectiva de todos: decisores políticos, profissionais de saúde, academia, sector privado, parceiros de cooperação e comunidades, bem como de outros sectores determinantes para a saúde, como a água, o saneamento e a educação. É um lembrete de que proteger vidas começa por valorizar, defender e aplicar a ciência nas decisões que moldam o nosso futuro.
A ciência fornece as ferramentas. A liderança define o rumo. As comunidades transformam essa visão em resultados concretos. Angola já demonstrou que é possível avançar neste caminho. Agora é o momento de reforçar esse compromisso, com a ciência, a solidariedade e a saúde para todos. Porque cada decisão baseada na evidência é um passo firme rumo a um país mais saudável, mais justo e mais resiliente.
Este artigo foi publicado pela primeira vez no Jornal de Angola, cuja versão pode ser encontrada aqui: https://www.jornaldeangola.ao/noticias/9/opinião/673158/defender-a-ciência-é-acima-de-tudo-defender-vidas